Mãe,
São Paulo é uma coisa linda de se ver, fico imaginando a senhora aqui, nesse mundo de gente, a senhora indo às compras de carro por que o mercado é looooonge pra dedéu, chegando no prédio com as sacolas e ter que subir de elevador, incrível mãe, tão diferente da nossa rua, da nossa casa, do mercado da Fátima, dos meninos que ajudam a senhora a carregar as compras enquanto a senhora abre o portão. Imagina, mãe, a senhora pedindo pra moça do caixa se pode pagar amanhã porque o dinheiro não deu? Acho que aqui a moça ia achar que a senhora é biruta, viu mãe?!
As coisas aqui são tão diferentes, tão maiores, tão mais mágicas, não tem aquela certeza que a gente tem quando está aí de que amanhã tudo vai estar igual, as pessoas, as casas, tudo no mesmo lugar. Aqui tem dia que eu chego no trabalho em dez minutos e tem dia que demora mais de hora, eu fico ali, no ônibus, depois no metrô, fico vendo aquele mundo de gente sem saber quem é ninguém, imaginando onde aquelas pessoas estavam ontem, por que ontem elas não estavam nesse ônibus, nesse horário.
Ah mãe, esqueço que a senhora nunca viu um metrô, é uma coisa muito maluca, é um trem que anda debaixo da terra e anda rápido pra dedéu, coisa de outro mundo mesmo. Mas o incrível mesmo são as pessoas, mãe, cada gente diferente que a gente vê no metrô! Eu fico pensando de onde essa gente vem, fico me perguntando o que eles pensam de mim, aqui a gente vê tanta coisa que nem eu sei mais o que eu penso de mim! Aqui a gente tem que estar sempre atento, se não a gente esquece da gente de vez!
Sinto falta do seu café, mãe. O café aqui é forte como a gente tem que ser pra enfrentar essa correria. O chefe lá do serviço disse que gostou do meu trabalho e a senhora sabe que eu não gosto dele, mas ganho melhor aqui né?! E além disso eu acho que eu cresci tanto aqui que não caberia mais na vida que eu levava aí. Ah mãe, se a senhora tiver tempo, pega as roupas que ficaram no armário daí e leva pra prima, ela deve querer. Eu comprei outras coisas aqui, mais modernas. A senhora precisava ver como eu estou me vestindo bem, todo dia antes de trabalhar eu me olho no espelho e fico me elogiando (até por que acho que ninguém reparou que minhas roupas eram novas). Sinto tanta falta da senhora, mãe. Da senhora cuidando do meu cabelo, separando minhas roupas, arrumando minha cama.
Quando eu chego em casa de noite ainda fico na janela, fico um tempão olhando, sempre tem gente na rua, dava pra ficar até de manhã olhando, tão diferente de ir dormir aí na nossa casa com esse silêncio, todo o mundo está dormindo. Gosto disso aqui, sabe? Às vezes eu saio andando de noite sem ter pra onde ir, ando, ando até cansar, tentando assimilar tudo que mudou dentro de mim desde que eu mudei pra cá, aqui a gente é livre, todo o mundo aceita a gente como a gente é, ninguém liga pro que a gente faz ou deixa de fazer...
Fico pensando...Quando eu morava aí, lembro bem, tinha noite que eu queria ficar acordada mas todo o mundo ia dormir e eu tinha vergonha de ficar acordada sozinha, me sentia estranha, diferente do resto do mundo, esquisita. Mesmo sozinha no quarto eu forçava a dormir por que parecia que a cidade inteira sabia que eu estava acordada. A gente não pode fazer nada diferente aí né mãe, a senhora sabe bem. Aqui não, aqui a senhora pode sair na rua descalça que ninguém repara, chego a pensar que desde que eu cheguei aqui nunca ninguém colocou os olhos em mim! É tanta liberdade, tanta! Muita mesmo...
Preciso adimitir que tenho saudade da senhora, dos primos, dos bailes, de sentar na porta de casa pra conversar com a vizinha, de muita coisa. Aqui é tudo na hora, amanhã a gente não sabe nem se a casa vai estar de pé ou se a chuva vai ter levado, aqui ninguém olha nos olhos da gente, é difícil até de dizer oi pro motorista do ônibus. Aqui a gente pode ser quem a gente quiser viu mãe, ninguém repara, ninguém cuida da vida da gente. Ninguém.
Só que eu gosto daqui, mãe. Gosto mesmo. Juro.
Beijos com saudades
São Paulo é uma coisa linda de se ver, fico imaginando a senhora aqui, nesse mundo de gente, a senhora indo às compras de carro por que o mercado é looooonge pra dedéu, chegando no prédio com as sacolas e ter que subir de elevador, incrível mãe, tão diferente da nossa rua, da nossa casa, do mercado da Fátima, dos meninos que ajudam a senhora a carregar as compras enquanto a senhora abre o portão. Imagina, mãe, a senhora pedindo pra moça do caixa se pode pagar amanhã porque o dinheiro não deu? Acho que aqui a moça ia achar que a senhora é biruta, viu mãe?!
As coisas aqui são tão diferentes, tão maiores, tão mais mágicas, não tem aquela certeza que a gente tem quando está aí de que amanhã tudo vai estar igual, as pessoas, as casas, tudo no mesmo lugar. Aqui tem dia que eu chego no trabalho em dez minutos e tem dia que demora mais de hora, eu fico ali, no ônibus, depois no metrô, fico vendo aquele mundo de gente sem saber quem é ninguém, imaginando onde aquelas pessoas estavam ontem, por que ontem elas não estavam nesse ônibus, nesse horário.
Ah mãe, esqueço que a senhora nunca viu um metrô, é uma coisa muito maluca, é um trem que anda debaixo da terra e anda rápido pra dedéu, coisa de outro mundo mesmo. Mas o incrível mesmo são as pessoas, mãe, cada gente diferente que a gente vê no metrô! Eu fico pensando de onde essa gente vem, fico me perguntando o que eles pensam de mim, aqui a gente vê tanta coisa que nem eu sei mais o que eu penso de mim! Aqui a gente tem que estar sempre atento, se não a gente esquece da gente de vez!
Sinto falta do seu café, mãe. O café aqui é forte como a gente tem que ser pra enfrentar essa correria. O chefe lá do serviço disse que gostou do meu trabalho e a senhora sabe que eu não gosto dele, mas ganho melhor aqui né?! E além disso eu acho que eu cresci tanto aqui que não caberia mais na vida que eu levava aí. Ah mãe, se a senhora tiver tempo, pega as roupas que ficaram no armário daí e leva pra prima, ela deve querer. Eu comprei outras coisas aqui, mais modernas. A senhora precisava ver como eu estou me vestindo bem, todo dia antes de trabalhar eu me olho no espelho e fico me elogiando (até por que acho que ninguém reparou que minhas roupas eram novas). Sinto tanta falta da senhora, mãe. Da senhora cuidando do meu cabelo, separando minhas roupas, arrumando minha cama.
Quando eu chego em casa de noite ainda fico na janela, fico um tempão olhando, sempre tem gente na rua, dava pra ficar até de manhã olhando, tão diferente de ir dormir aí na nossa casa com esse silêncio, todo o mundo está dormindo. Gosto disso aqui, sabe? Às vezes eu saio andando de noite sem ter pra onde ir, ando, ando até cansar, tentando assimilar tudo que mudou dentro de mim desde que eu mudei pra cá, aqui a gente é livre, todo o mundo aceita a gente como a gente é, ninguém liga pro que a gente faz ou deixa de fazer...
Fico pensando...Quando eu morava aí, lembro bem, tinha noite que eu queria ficar acordada mas todo o mundo ia dormir e eu tinha vergonha de ficar acordada sozinha, me sentia estranha, diferente do resto do mundo, esquisita. Mesmo sozinha no quarto eu forçava a dormir por que parecia que a cidade inteira sabia que eu estava acordada. A gente não pode fazer nada diferente aí né mãe, a senhora sabe bem. Aqui não, aqui a senhora pode sair na rua descalça que ninguém repara, chego a pensar que desde que eu cheguei aqui nunca ninguém colocou os olhos em mim! É tanta liberdade, tanta! Muita mesmo...
Preciso adimitir que tenho saudade da senhora, dos primos, dos bailes, de sentar na porta de casa pra conversar com a vizinha, de muita coisa. Aqui é tudo na hora, amanhã a gente não sabe nem se a casa vai estar de pé ou se a chuva vai ter levado, aqui ninguém olha nos olhos da gente, é difícil até de dizer oi pro motorista do ônibus. Aqui a gente pode ser quem a gente quiser viu mãe, ninguém repara, ninguém cuida da vida da gente. Ninguém.
Só que eu gosto daqui, mãe. Gosto mesmo. Juro.
Beijos com saudades
