sábado, 7 de novembro de 2009

Correio

Mãe,

São Paulo é uma coisa linda de se ver, fico imaginando a senhora aqui, nesse mundo de gente, a senhora indo às compras de carro por que o mercado é looooonge pra dedéu, chegando no prédio com as sacolas e ter que subir de elevador, incrível mãe, tão diferente da nossa rua, da nossa casa, do mercado da Fátima, dos meninos que ajudam a senhora a carregar as compras enquanto a senhora abre o portão. Imagina, mãe, a senhora pedindo pra moça do caixa se pode pagar amanhã porque o dinheiro não deu? Acho que aqui a moça ia achar que a senhora é biruta, viu mãe?!

As coisas aqui são tão diferentes, tão maiores, tão mais mágicas, não tem aquela certeza que a gente tem quando está aí de que amanhã tudo vai estar igual, as pessoas, as casas, tudo no mesmo lugar. Aqui tem dia que eu chego no trabalho em dez minutos e tem dia que demora mais de hora, eu fico ali, no ônibus, depois no metrô, fico vendo aquele mundo de gente sem saber quem é ninguém, imaginando onde aquelas pessoas estavam ontem, por que ontem elas não estavam nesse ônibus, nesse horário.

Ah mãe, esqueço que a senhora nunca viu um metrô, é uma coisa muito maluca, é um trem que anda debaixo da terra e anda rápido pra dedéu, coisa de outro mundo mesmo. Mas o incrível mesmo são as pessoas, mãe, cada gente diferente que a gente vê no metrô! Eu fico pensando de onde essa gente vem, fico me perguntando o que eles pensam de mim, aqui a gente vê tanta coisa que nem eu sei mais o que eu penso de mim! Aqui a gente tem que estar sempre atento, se não a gente esquece da gente de vez!

Sinto falta do seu café, mãe. O café aqui é forte como a gente tem que ser pra enfrentar essa correria. O chefe lá do serviço disse que gostou do meu trabalho e a senhora sabe que eu não gosto dele, mas ganho melhor aqui né?! E além disso eu acho que eu cresci tanto aqui que não caberia mais na vida que eu levava aí. Ah mãe, se a senhora tiver tempo, pega as roupas que ficaram no armário daí e leva pra prima, ela deve querer. Eu comprei outras coisas aqui, mais modernas. A senhora precisava ver como eu estou me vestindo bem, todo dia antes de trabalhar eu me olho no espelho e fico me elogiando (até por que acho que ninguém reparou que minhas roupas eram novas). Sinto tanta falta da senhora, mãe. Da senhora cuidando do meu cabelo, separando minhas roupas, arrumando minha cama.

Quando eu chego em casa de noite ainda fico na janela, fico um tempão olhando, sempre tem gente na rua, dava pra ficar até de manhã olhando, tão diferente de ir dormir aí na nossa casa com esse silêncio, todo o mundo está dormindo. Gosto disso aqui, sabe? Às vezes eu saio andando de noite sem ter pra onde ir, ando, ando até cansar, tentando assimilar tudo que mudou dentro de mim desde que eu mudei pra cá, aqui a gente é livre, todo o mundo aceita a gente como a gente é, ninguém liga pro que a gente faz ou deixa de fazer...

Fico pensando...Quando eu morava aí, lembro bem, tinha noite que eu queria ficar acordada mas todo o mundo ia dormir e eu tinha vergonha de ficar acordada sozinha, me sentia estranha, diferente do resto do mundo, esquisita. Mesmo sozinha no quarto eu forçava a dormir por que parecia que a cidade inteira sabia que eu estava acordada. A gente não pode fazer nada diferente aí né mãe, a senhora sabe bem. Aqui não, aqui a senhora pode sair na rua descalça que ninguém repara, chego a pensar que desde que eu cheguei aqui nunca ninguém colocou os olhos em mim! É tanta liberdade, tanta! Muita mesmo...

Preciso adimitir que tenho saudade da senhora, dos primos, dos bailes, de sentar na porta de casa pra conversar com a vizinha, de muita coisa. Aqui é tudo na hora, amanhã a gente não sabe nem se a casa vai estar de pé ou se a chuva vai ter levado, aqui ninguém olha nos olhos da gente, é difícil até de dizer oi pro motorista do ônibus. Aqui a gente pode ser quem a gente quiser viu mãe, ninguém repara, ninguém cuida da vida da gente. Ninguém.

Só que eu gosto daqui, mãe. Gosto mesmo. Juro.

Beijos com saudades

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O branco do teto

Branco era o teto do quarto onde eu dormia quando pequeno. Branco e com um lustre branco. Hoje o teto do meu quarto é branco, mas tem um lustre colorido e é maior. (O lustre, pois o teto é menor, o quarto é menor). Eu, em compensação, cresci um bocado.
Quando pequeno eu olhava para o teto e imaginava o futuro. Imaginava outro quarto, outro lustre, outro eu, diferente daquele que deitava e imaginava. E diferente desse que hoje deita e lembra de quando era pequeno. Um terceiro eu, intermediário, efêmero, ilusório, etéreo.
Esse eu imaginado mal se reconhece em mim. E eu mesmo mal me reconheço como fruto ou consequência daquele menino que deitava e imaginava. Fico pensando, pensando e formo na minha cabeça (ou projeto no branco do teto) a imagem de uma corrida de bastão. Cada novo episódio, cada pequena morte, cada florir recente e lá vai um novo eu receber o bastão e continuar a corrida. Fico observando a imagem, a corrida, os corredores, ora mais rápidos, ora lentos e cansados, tenho por vezes a sensação de ter sido roubado, alguém que esqueceu de passar o bastão e pronto: o suficiente para o corredor seguinte perder completamente a relação com o primeiro. Penso nisso e sei que é ilusório: claro que todos somos o mesmo. Eu, ele e o próximo que avisto, logo ali, a me estender a mão, torcendo para que chege logo sua vez. E acho mesmo que chegou.

Antes de mais nada...

... preciso me desculpar pela ausência prolongada. Mas não há desculpas. Só ausências. Antes prolongadas, agora abreviadas, espero que extintas. Beijos em todos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mais um café

Eu estava lendo uma revista. Gosto muito de ler, sempre sento no banquinho da esquerda, logo na entrada, que é onde bate o sol das três da tarde.

“Oi”, ele disse, e eu respondi “oi”, com letra minúscula, completamente sem vontade de puxar assunto.

“Sabe”, ele disse, “eu tenho pensado em muita coisa ultimamente”.

Silêncio.
Fiz questão de não responder.
Detesto conversar quando estou sem vontade de conversar, acabo ficando mal humorado e respondendo tudo de qualquer jeito e sempre chateio as pessoas e me coloco em maus lençóis.

Ele continuou. “Esses dias eu descobri que a vida é realmente uma bobagem. Por que eu passei a vida tentando ser uma coisa e descobri que estou preso nesse corpo e sou obrigado a conviver comigo e com o melhor que eu posso ser e nem sempre é o que eu gostaria. Aliás, nunca é o que eu gostaria. E eu já sofri muito com isso, entende? Aí comecei a desencanar, chutar o balde, fazer as coisas meio sem pensar, viver intensamente. E não é que comecei a achar tudo isso um saco também? A vida sempre dá um jeito de enganar a gente, de não deixar a gente sossegado. Antigamente eu morria de medo de escolher uma profissão e descobrir depois de velho que tinha passado a vida insatisfeito. Hoje eu acho que minha profissão é um saco, que todas as profissões são um saco e que não faz a menor diferença. Percebe a mágica nisso tudo? Esses livros de auto ajuda vivem dizendo que todos somos únicos e especiais e isso é só uma forma diferente de dizer que nada é especial porra nenhuma, somos todos uns parasitas infelizes, vivendo umas vidinhas de merda e nos sentindo únicos e especiais e achando que nossos problemas são os maiores do mundo. E o grande lance é que nossos problemas são realmente os maiores de mundo simplesmente por que são nossos e não faz o menor sentido tentarmos resolver o problema dos outros por que a solução que daríamos para o outro não resolve o problema do outro. O problema do outro só resolve quando é ele que resolve, quando ele vai lá e descobre a solução e percebe finalmente que a solução é não ter solução. Sei lá, acho que tenho lido muito Paulo Coelho. Fico falando essas coisas de ‘eu e o outro’ e no fim nada faz sentido com o começo. Bem Paulo Coelho mesmo. Eu entendo que tudo isso é a maior viagem, mas faz tanto sentido na minha cabeça... A felicidade só é possível quando compartilhada, ninguém consegue ser feliz comendo a Angelina Jolie, a felicidade mora em comer a Angelina Jolie e contar pros outros. No fim das contas eu só sei que eu existo por que você está aqui fingindo que está ouvindo tudo que eu estou dizendo, percebe?”

“Eu estou ouvindo o que você está dizendo”, respondi de sobressalto só porque tinha ouvido o finalzinho e sabia que ele ia ficar chateado se percebesse que eu não estava dando a mínima. Logo emendei que “eu ando muito pensativo, coisas minhas, não sou de falar muito”, imaginando que isso o faria desistir. Só que ele continuou.

“Pois é, eu também não era de falar muito, sempre me preocupei com isso, com não falar muito, não chatear os outros com meus problemas, coisas assim. Hoje eu falo bastante por que não ligo a mínima se estou chateando ou não, eu apenas falo por que preciso falar, nem ligo se tem alguém escutando. Isso exemplifica bem o que eu dizia antes, eu passei a vida tomando cuidado pra não incomodar, cuidava disso como se cuida de uma mãe doente e de repente acontece o pior, a velha morre. Hoje não tenho mais essa preocupação em não dizer as coisas e o pior é que a graça estava na preocupação, eu me preocupava em não falar e isso era uma escolha toda minha, diferente dessa atitude descabida de sair falando sem compromisso, só pra não ficar calado, só por falta de escolha, só por não saber o que dizer. Eu não dizia nada por que esperava que alguém me pedisse pra dizer e hoje eu falo sem parar esperando que alguém me mande parar, mas no fundo a atitude é a mesma, é só outro jeito de ser individualista. Você se acha individualista?”

Existe uma técnica em não escutar as pessoas. Eu continuo lendo minhas revistas e, quando a pessoa fala alguma coisa com entonação mais aguda, eu imagino que seja uma pergunta e respondo aleatoriamente que sim ou que não. Naquela hora ia responder que sim, mas acabei perguntando “o quê?”.

“Individualista”, ele explicou.

“Todo o mundo é individualista. Afinal somos indivíduos.”

“Pois é, faz sentido. Eu não acho que você seja individualista, mas não faz diferença se você acha que é, certo?”

“Certo.” Nada como raciocínio lógico. Talvez fosse isso que ele estivesse esperando ouvir. “Eu acho que todos somos individualistas e não me importo com isso.”

“Interessante. Sabe o que é mais interessante?”

Outra pergunta. Isso não acaba nunca. Vou responder e voltar a ler. “Não, o quê?”.

“Eu gosto muito de saber o que você pensa. Mas desde que você queira falar. Por que se eu quiser saber o que você pensa mesmo quando você não quer falar, eu estarei tentando me relacionar com alguém que não é você. E isso é realmente complicado de assimilar, por que nem sempre combina minha vontade de ouvir com a sua de falar. E eu também nunca tive muito o hábito de me interessar intensamente pelas pessoas, isso é um pouco novo para mim, essa sensação de querer saber o que você pensa só por saber, sem me importar se você pensa o que eu gostaria que você pensasse”.

Silêncio de novo. Acho que vou levantar para tomar um café antes que ele retome. Hum, tarde demais...

“Era disso que eu gostaria de falar. Do quanto percebi que preciso das pessoas. No começo eu fiquei bem chateado de perceber isso, gosto muito de ser auto-suficiente, ainda estou um tanto chateado, reconheço agora. Também reconheço agora que toda minha idéia de esperar que alguém me note não faz o menor sentido por que é baseada no princípio falso de que ninguém me nota e isso é uma mentira deslavada. Mesmo você aí vivendo sua vida é obrigado a me notar por que eu existo aqui e não tenho o menor controle sobre a impressão que você vai ter de mim. O sentido que eu dava para minha vida antes era baseado em adivinhar o que eu tinha que fazer para manter presa a atenção daqueles que me olhavam. Depois que eu parei de me preocupar com isso, as coisas ficaram muito mais fáceis, era só ir vivendo e colhendo os frutos, afinal sempre tem alguém no caminho interessado no que eu tenho para oferecer. Só que de repente eu notei alguma coisa diferente, eu percebi que eu também sinto, que eu também escolho, que eu também noto os outros, que também me interesso no que eles oferecem. E foi aí que eu percebi que eu preciso das pessoas. Preciso da imperfeição delas, do que elas são por dentro, do que elas mostram. É isso que tem tomado meus dias. Sabe o lance que eu falei da profissão? Também tem relação com isso. Eu até gosto de trabalhar no que eu trabalho mesmo não sabendo se é o trabalho ideal para o meu potencial, mas isso não vai fazer com que você me note do jeito que eu espero ser notado. E está sendo difícil conciliar a minha vontade tão nova de ser o que eu sou - independente da impressão que isso vai causar - com a minha vontade ainda mais nova de chamar a sua atenção. Por que no fim das contas esse é o jogo: eu notei você e te chamei para vir comigo e agora estamos aqui, eu falando, você lendo revista, estamos juntos nesse dia branco sem saber o que vai acontecer daqui a pouco. E tudo que eu posso fazer é querer ouvir você e torcer para ser nas horas em que você que falar. E sentir vontade de falar com você mesmo sem me preocupar se você está escutando, desde que o silêncio venha de você”.

Mais silêncio. Finalmente parece que ele parou de falar. Ficamos um pouco quietos os dois e ele disse que ia tomar um café. Eu continuei lendo e achei estranho, não conseguia mais me concentrar, como se de repente fosse muito difícil ler sem nada que concorresse por minha atenção. E fiquei ali, desejando que ele me chamasse pra tomar um café com ele, sentindo falta de qualquer coisa que eu não sei o que é.

domingo, 26 de julho de 2009

Sobre estar apaixonado

Está aí, em qualquer comédia romântica, em inúmeros blogs, vídeos, nos links abaixo...

Conhecemos alguém e nos achamos únicos e especiais.

Todos nós, únicos. Engraçado, não?

Só que é da nossa natureza.

Quando menos esperamos nos sentimos no paraíso.

Quando menos esperamos não sabemos mais se podemos viver sem o outro.

Então percebemos que estamos perdendo o controle.

E sentimos medo.

E só o que podemos fazer é ter paciência.

Às vezes temos que mudar nosso modo de vida, como se a paixão pelo outro nos fizesse mudar por dentro.

E decidimos arriscar.

E sentir. Sentir. SENTIR.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ando lendo muito...

... e sentido muita vontade de citar meus autores prediletos. Sinto essa necessidade estranha de compartilhar, seja o que nasceu aqui no meu sótão, seja o que roubei furtivamente do sótão de outrém. Então segue aí algo que não é meu, embora não esteja totalmente alheio a mim: é um recorte que fiz com frases de alguns textos de Caio Fernando Abreu. Leiam, dvirtam-se e concluam comigo: o cara era FODA.
Quem diria que viver ia dar nisso?

Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor.
Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro.
Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é.
Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade.
Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal.
Olha, eu sei que o barco está furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também.
Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: Há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas.

Escrevo a você, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.
Desejo a você uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia. Deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez.
As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem, há o que são e nem sempre se mostra.
É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.
Eu só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo.
Chegue bem perto de mim, me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada.
= )

sábado, 4 de julho de 2009

Universo Particular

Tudo isso foi privadamente meu, sem nostalgia, sem desgraça, sem felicidade: foi a minha parte, a minha reserva, a minha fazenda solitária. - Pablo Neruda

And in your eyes I see what´s on my mind - Dave Mathews Band

Minha privacidade não se limita às minhas gavetas ou às minhas correspondências. Minha privacidade são os minutos que eu demoro na cama antes de levantar, minha maneira de calçar as meias, meus desejos sutis acerca de outros seres humanos, minha particular fórmula de seduzir. Meus pensamentos, meus sentimentos, os atos que escolho realizar, tudo imensamente meu. E o que me limita, o que me define, não é sempre o que eu desejo ser, mas o que eu sou até sem querer, ou que restou de mim e continua restando a cada dia, após vinte e quatro horas de decisões e opções entre isto ou aquilo.

Não é um estado imutável esse "quem eu sou". No entanto, também não está aberto à discussão. É algo imensamente particular e privado. O que acontece em meus dias é algo solitário, sempre. Minhas dores e alegrias são indivisíveis e geram atitudes em mim que são as melhores que eu posso ter. Eu posso expressá-las, gritá-las, expô-las, mas não posso dividi-las. Compartilhá-las. Elas continuam inteiras dentro de mim.

O outro, o ser humano ao meu lado, de certa forma também é meu. É meu amigo, meu colega, meu isso, meu aquilo. É o que eu observo dele, o que espero, desejo e julgo. E é um personagem da minha história, eu reajo a ele, sou causa e consequência dele. Ele faz parte, de certa forma, do meu universo particular.

Daí vem a maior confusão de todas: são inúmeros seres humanos, uns ao lado dos outros, todos vivendo em seus mundinhos de privacidades. E a magia está em poder ser você e ter o outro no seu mundo sem invadir a existência alheia, sem abusar, sem violentar e sem ser violentado: conseguir fazer isso é uma sabedoria sutil e deliciosa. Conviver é uma prática cheia de nuances, detalhes, roçar de vidas, trocas de experiências, concessões. Conceder a entrada de outra pessoa à um ambiente antes só seu é extremamente belo. Permitir que o outro vá, aos poucos, vislumbrando seu mundo é um processo lento, delicado, extremamente saboroso. Ver, nos olhos do outro, o que vai na sua mente é um outro modo completamente rico de se autoconhecer. E como é lindo esse permitir.

Talvez por isso entrar em um ambiente alheio sem ser convidado seja tão extremamente horrendo. É penetrar sem permissão, é abusivo como um estupro. Invadir é chegar em um ponto de desespero sobre o outro, sobre querer saber o outro, sobre querer definir, limitar conhecer, absorver o outro para si que supera qualquer noção de auto conhecimento. É um jeito triste de se perder de si mesmo, de sair do próprio centro. É uma atitude covarde, medrosa, causada pela ausência de propriedade, talvez pela sensação de que é necessário saber o outro para poder ser, como se realmente uma coisa definisse a outra. E o medo, as atitudes geradas pelo medo, são o mal da sociedade: um sente e todos ao redor sofrem.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Estive calculando e...

...no fim das contas, relacionamentos são como alpinismo. Você está lá, com os dois pés no chão, vê aquela montanha linda e decide escalar. É encantador e divertido. Só que quanto mais alto você sobe, mais longe fica o chão. E menos oxigênio você absorve. Amor é assim. Rareia quando você se aprofunda, quando vê as coisas de perto, quando chega lá no topo. Amar na superfície, com os dois pés no chão, é realmente fácil. Difícil é amar alguém que você conhece de verdade. E na verdade, só alguns alpinistas sobrevivem.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Coisas Que Precisam Ser Curadas

Bom amigos, aproveito a onda de inspiração pra tirar o atraso... Esse é grande, vale por dois. Devo postar de novo em Julho, ok? Mais uma vez, espero que gostem. (Lan, esse é pra você.)

Coisas que precisam ser curadas

- Pai? O senhor está acordado?
- Estou querido...
- Pai, você precisa dormir. Seu corpo precisa descansar.
- Filho, estou cansado de dormir, cansado de ficar aqui. Descansar, para mim, seria sair dessa cama, dar uma volta, ver a rua, o sol. Sair daqui. Mesmo que isso signifique sair dessa vida.
- Pai, não fala assim. O senhor vai se curar.
- Sabe filho... Eu já tive a sua idade, mas você nunca teve a minha. Acredite, eu entendo mais a vida do que você. E o que você entende por “se curar” é um tremendo engano. O que a sociedade branca capitalista em que vivemos entende por “se curar” é uma compreensão totalmente contaminada pela normopatia, pelo moralismo, pelo preconceito. Os médicos acham que curar um doente é devolvê-lo ao estado anterior, não se julga mais o que é realmente saudável. E filho, creia em mim. O que é saudável para um, pode não ser saudável para outro.
- Pai... Eu entendo. Mas você precisa vencer essa doença, sobreviver. Estamos falando do seu corpo, pai, não de emoções e coisas espirituais ou subjetivas.
- Não querido, você ainda não entende. Tampouco eu estou falando de coisas subjetivas. Minha alma é que está ferida, realmente ferida. Isso é um fato tão real... O engano permanece, querido, quando você pensa que essas coisas são separadas. Meu corpo está apenas ajudando minha alma a se libertar.
-Pai, pai! Não fala assim! Você vai sair dessa!
- Claro que vou, criança, claro que vou. Todos vamos sair dessa. Só que você, hoje, só vê uma saída. E eu vejo tantas, tantas... Eu vivi errado, meu filho. E o que cura de verdade é o tempo. Uma perna quebrada pode se restabelecer em horas ou semanas, filho, depende da consciência do dono da perna. Mas o tempo é que é o fator determinante. E eu não tenho tempo para curar tanta ferida.
- Sabe velho... Eu nunca ouvi você falar assim. E penso agora que talvez tenha sempre sentido falta de saber mais de você.
- É... Eu também feri outras pessoas ao meu redor. E são essas coisas que precisam ser curadas, filho. Tantas vezes em que eu te abandonei, em que eu não estava lá... Eu vi você crescer, vi você se apaixonar, vi você sofrer. E na minha ignorância eu achava que era melhor não me envolver, deixar você se virar, te ajudar a ser mais forte, mais duro.
- Ah, pai. Não se culpe. Talvez você tenha razão, você me ajudou a ser quem eu sou hoje.
- Não, querido, não. O mérito é todo seu. O que eu te ensinei, filho, o que você aprendeu comigo, foi a pior das lições. Não foi o que eu fiz com você, mas o que eu fiz comigo... A gente aprende pelo exemplo, sabe? E o exemplo que eu te dei foi que o melhor é ser duro, não se deixar levar pelo sentimentalismo. Eu te mostrei minha dureza e você entendeu que era sinônimo de força. E isso é uma mentira tão imensa!
-Pai, a minha força veio do senhor. E isso eu só posso agradecer.
-É... Eu sou um cara forte. Nunca me deixei abalar pelo medo, nunca. Mas ser forte não tem nada a ver com ser duro. A vida não é dura, querido. Não é feita de ossos, carnes, coisas materiais. A vida é mágica, a morte é mágica, tudo é lindo. Tudo existe numa simbiose tão intensa, tão maravilhosa... A dança do acaso é uma coisa tão linda de se observar que a dor deixa de ser importante. No fim das contas, os momentos duros são só uma parte. E eu pensava que a verdade seca e cruel era a melhor forma de fortalecer uma alma.
- Ah, pai, nisso eu tenho que concordar. Eu vejo a vida como algo tão maior! Só que não sei o que fazer com isso, acho que prefiro agir com o que consigo enxergar.
- Não, filho, não! Essa foi a lição que eu te passei e que só hoje vejo o quanto está errada. Eu te disse inúmeras vezes que era sempre melhor lidar com a verdade, por mais dura que fosse. Que era sempre melhor não fechar os olhos para a dor. Só que eu esqueci uma coisa: nem sempre a verdade é o que vemos, nem sempre é a única verdade. A solidão, a morte, a traição, a perda, tudo isso existe, mas não é só o que existe. A dor pode curar, a mentira pode salvar. Não diretamente, mas em longo prazo, num plano maior, no encontro das almas. E a minha dureza me afastou de você, tentando deixar você mais forte.
- Pai... Não estou entendendo... Você sempre esteve presente.
- Em corpo presente sim, filho. Mas nunca chorei na sua frente, nunca demonstrei emoção alguma. Lembra do que eu disse quando seu primo morreu? Eu disse a você que ele tinha morrido, te expliquei o que era a morte, que a pessoa deixava de existir... Pensava que era melhor você saber a verdade. Só que preste atenção na complexidade da vida: eu não sabia a verdade! Filho, eu não sei o que é morrer, não sei o que é a morte. Só sei que seu primo não ia mais poder brincar com você, só sei que ele ia fazer falta e que isso era uma notícia triste e que devia ser recebida com lágrimas. Isso não tem nada a ver com ser duro, filho, tem a ver com ser forte. Se eu tivesse chorado... talvez você não tivesse aprendido a abandonar suas emoções.
- Pai, eu nunca abandonei minhas emoções.
- Filho, você tem tempo ainda. Aproveita esse tempo, ama, sofre, vive. Se aceita filho, se mostre para a vida com tudo que você tem. Porque todas as vezes em que eu te abandonei eu tive que abandonar minha vontade de estar contigo. E o que eu te ensinei foi o auto-abandono, filho. Eu vejo isso em você, não me diga que é mentira. Eu vejo você se abandonando todos os dias, como eu fiz comigo. Vejo você abandonando suas ilusões, seus sonhos, a magia que sempre esteve ao seu redor e que está ficando tão rara... Não faz isso filho, não faz...
- Velho, eu nunca achei que você percebesse, nunca imaginei que você soubesse que eu tinha tanto sentimento guardado...
- Viu, filho, o mal que eu causei a todos nós?
- Não, pai, agora é o senhor que está errado. O senhor fez o que pode. E pai... Eu estou me sentindo tão leve por ter essa conversa. Eu queria tanto que o senhor soubesse como eu me sinto... E eu também tenho culpa, eu preciso aprender a dizer o que sinto, o que quero, o que me dá prazer e o que me machuca. Eu nunca tinha percebido isso.
- São essas coisas que precisam ser curadas, querido. Seu abandono é algo que precisa ser curado. Não meu corpo.
- Pai. Acho que você acabou de me ensinar o que é a cura. E eu não vou mais fazer isso, pai, não vou mais me abandonar. Mas fica comigo agora pai, não me abandona agora. Eu vou precisar do senhor.
- Filho, meu filho. Sabe aqueles filmes babacas, sentimentalistas, onde alguém morre e os outros dizem: ele estará olhando por nós? Não são babacas, filho. Eu nunca vou te abandonar. Porque a vida é assim, essa é a verdade e não tem nada de dura: eu vou morrer e o que eu fui pra você vai permanecer indelével no seu coração. Essa nossa conversa vai existir para sempre, querido. E morrer é assim, faz parte da vida. Não tem dureza nenhuma nisso. Ir embora sabendo que, de alguma forma, eu ajudei você a se curar... Isso é lindo filho. Eu vou estar com você pra sempre.
- É, pai, você vai.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Criança Interior

Antes de mais nada, desculpas aos leitores. A última postagem rolou há um mês atrás e eu estava tentando escrever a cada 15 dias. Acontece que sou professor e fim de semestre é algo realmente insano, estou sem computador em casa e não tive tempo de escrever. Se der, nas férias eu recupero o tempo perdido e posto um texto por semana...

Beijos e abraços, espero que gostem, que a visita não seja vã.

A Criança Interior

Paula olha o filho brincando no chão da sala: incrível a quantidade imensa de novidades. Começando a andar, ele descobre coisas que nunca tinha visto, coisas mais altas, mais coloridas, mais incríveis até mesmo que seus pés cheios de dedos. Descobre que a parede é alta, alta e sobe até o teto. Descobre que o teto é comprido. Olha tão interessado para o teto que cai de costas. Paula se encanta com as novidades do filho e se incomoda com a falta de novidades da sua vida. Observa como a criança se desenvolve: não sabe andar direito, cai, se machuca. Às vezes traumatiza e não tenta de novo. Talvez demore a tentar. Às vezes nem liga pra dor e logo se levanta. Se esforça mais e mais. Um dia, cedo ou tarde, a criança muda: antes não sabia andar e agora já sabe. Aprendeu.

Paula se questiona sobre as coisas que aprendeu no ano passado: aprendeu a calcular o imposto de renda, aprendeu a economizar, aprendeu uma receita nova. Nos últimos dez anos aprendeu a cozinhar, administrar as contas, aprendeu a arte de ser professora, ainda tenta aprender a ser profissional, mãe e dona de casa. Pensava que tinha mudado demais, aprendido demais, até ver seu filho: ele aprende muito mais do que isso em apenas um dia.

Paula questiona por que temos (nós, adultos) a mania de esquecer como é ser criança. Aos poucos, quanto mais aprendemos, mais julgamos que já sabemos o suficiente, precisamos saber cada vez menos. Nos esquecemos diariamente que só o presente é absoluto e único: o momento atual é um que nunca vivemos e nunca mais viveremos, inteiramente novo. Se imaginamos que já sabemos como lidar com ele, que chance estamos nos dando de vivê-lo verdadeiramente?

Paula conclui que a verdade por trás disso é que abandonamos espontaneamente nossa criança no passado. Porque precisamos ser fortes, precisamos ser duros, precisamos sobreviver. Porque quando aprendemos algo, não estamos mais dispostos a nos questionar, temos medo de simplesmente descobrir que estamos errados, temos medo de recomeçar, de encarar de novo o desconhecido: para aprender mais seria preciso assumir que não sabemos tudo ou que o que sabemos nos foi ensinado errado. Como ficaria nossa autoconfiança se estivéssemos sempre nos colocando sob a possibilidade de não estarmos certos em nada? Que controle teríamos sobre nosso cotidiano, nossa rotina, nossas crenças, nossas relações? É disso que temos medo, define Paula, julgando que aprendeu mais uma lição.

Paula percebe que no fim das contas nos esquecemos da magia de não saber, de ir atrás, de descobrir. Quanto mais nos acostumamos a saber, mais nos acomodamos na posição de donos da verdade, não queremos mais perder esse controle que conseguimos, mesmo que seja um controle ínfimo sobre nossas próprias reações: a sensação de autoconhecimento. Percebe também que deve ser por isso que tentamos manter as coisas como estão, temos medo de mudar de emprego, de discutir a relação, de pintar o cabelo: por que se algo mudar, deixaremos de saber. Será novo e assustadoramente desconhecido.

Paula olha o filho brincando no chão da sala, olha a sala, olha a cozinha, sente a casa vazia. Paula ainda não sabe esquecer. Antes Paula não sabia amar e então aprendeu: aprendeu a se envolver, se entregar, se doar, receber, pedir, aceitar, cobrar. Aprendeu a zelar pela relação, pela família, pelo marido. Aprendeu a ser casada, a ser par. Saberia agora ser sozinha?