domingo, 1 de janeiro de 2012

TOP 5 - Especial

Meu top 5 na verdade só tem 4 escritores. Martha Medeiros, Clarice Lispector, Júlio Cortázar e Caio Fernando Abreu. Mas hoje quero homenagear meu 5º escritor preferido que é o blogger. Eu leio coisas incríveis aqui e hoje faço questão de citar os dois blogs que acompanho a mais tempo e que tem os textos mais lindos que eu já vi na internet. E olha a coincidência dos nomes: Fábio e Fábia. A vocês dois, um ano de muita criatividade e prosperidade. Aos leitores, um ano cheio de poesias!

Texto 1 - Fábio Justino - Todo mar é sujo

Porque azul é o longe.

As águas quando chegam
chegam marrons
quase em lamaçadas

Não existem peixinhos, flores ou oferendas
o que o mar esconde são feras
e alimento de feras

Nenhuma onda é boa, bela ou fraca
porque toda água afoga

O que vem do mar e toca a pele
não relaxa o corpo,
se não perfura, arranha a alma

Porque o mar que transforma não é calmo
nem limpo

São falsas as águas tranquilas:
será sempre violenta a praia viva

Porque harmonia só tem aquilo que não pulsa
e acalma, pondera
só as paisagens estáticas trazem verdades paradisíacas

mas não se molha os pés com fotografias.

 Texto 2 - Fal Azevedo - Quase uma carta de amor

Querido, estou aqui em Lisboa, pensando em você. Na sua dor, na sua solidão, na minha solidão, que a cada dia que passa é mais pesada e assustadora. Naquilo que você falou antes de eu vir para cá, lembra? Você estava tão triste quando nos despedimos. Triste, cansado, sozinho. Contou do seu stress, da sua baqueada de uns poucos dias antes. E me disse uma coisa dolorosa. Pensamos demais, você disse. E isso, antes de ser um autoelogio, bem sei, é uma crítica a nós dois. Nós pensamos demais, querido, porque ficamos com medo de sentir. Sentir dor, sentir amor, sentir rejeição, medo, ansiedade. Sentir, simplesmente. Então, para nos proteger, pensamos, racionalizamos. Criaturas inteligentes que somos, estraçalhamos toda e qualquer tentativa de aproximação com grossas paredes de certezas e definições. Mantemos qualquer um que nos queira a uma distância segura, isolado por um fosso de “nãos” e teorias (geralmente muito boas, devo admitir).
Entendi seu desabafo, sua aflição, porque eu sou igualzinha a você. Você me fala de como é arredio, da sua “babaquice”. Mas você não foi babaca, só um pouquinho medroso. Tá, vá lá, um pouquinho babaca, também. E acho que, naquela noite em especial, a solidão aí na sua sala da universidade ficou meio pesada. E você se lembrou daquela moça de vestido preto que você foi buscar no aeroporto, naquele começo de abril. Uma moça assustada, tímida e que gostava tanto de você. Acho que você se lembrou o quanto o assustou ser tão gostado, de como você fugiu e a afastou de você. Você se lembrou do seu alívio ao despachá-la para casa na segunda-feira de manhã com seu coração intocado, sua fortaleza de pé, sua vida em ordem. E talvez, só talvez, você tenha se dado conta, então, que tanto sua solidão quanto seu exílio são voluntários, você os escolheu. E pensando nisso, me senti triste. Por nós dois. No dia do nosso desembarque na Normandia, na hora H, no dia D, você mandou suas tropas de volta para casa e me deixou (desculpe, mas o trocadilho é inevitável), a ver navios. Você me mandou embora, mas eu não reclamei. Simplesmente porque eu mesma já fiz isso muitas e muitas vezes. Recuei com outros como você recuou comigo. Você não me deixou amá-lo e quando você fez isso, um “ah-ah” de reconhecimento ecoou nessa minha cabeça oca. Eu já fiz isso. Conheço esse filme e eu morro no final. Você, afinal, foi mais uma das minhas historinhas de quase amor. Seu aparente arrependimento de agora, chega até a ser engraçado. Porque eu penso, querido, que estive nos seus braços todo aquele tempo, tanto tempo, não foi? E das duas uma: ou você não me queria realmente, ou você me queria, mas não soube o que fazer comigo. E agora é muito tarde para que você descubra o que realmente aconteceu, porque eu fui embora e não volto. Tenho que deixar você aí, com suas dúvidas, seus passos incertos, sua quase vontade de ser feliz. Esse quase que nos angustia, porque quase pode ser tudo e quase pode ser nada. É uma palavra sem antônimo, sem explicações, imprecisa ao extremo e, ao mesmo tempo, irritantemente clara. Quase se explica, se basta. Nós quase ficamos juntos, quase fomos bons um para o outro. Agora, eu tenho quase a certeza de que perdemos uma grande oportunidade e você tem quase a certeza de que sua solidão poderia ser um pouco mais branda com a moça de vestido preto por perto. Esse quase que buscamos por aí e não encontramos, porque a falta é nossa. Mas, ah, Deus, já estou eu aqui, racionalizando, analisando e me distanciando. Já formulei uma teoria, expliquei seus pontos e fiz análises. E, palavra de honra, não era nada disso que eu queria. O motivo desta carta era dizer que eu não amo mais você, querido. Não como amei um dia. Descobri que quase, para mim, não é suficiente.
Mas esta carta é também para lhe dizer que existe um outro lado. Algumas coisas não podem ser mudadas, alguns sentimentos não podem ser retirados. O que significa que eu posso não amar mais você, mas o amor que foi seu um dia, vaga por aí sem rumo. Amor não é biodegradável. O amor que um dia foi seu está aí. Com você. Era isso que eu queria lhe dizer. O fantasma de tudo que poderíamos ter sido está aí, por perto de você. Ele recolhe seus suspiros. (Não é o Mário Quintana, que diz que os suspiros de um menininho que dorme são barquinhos? Vou procurar a poesia e mando para você, porque você suspira enquanto dorme). Ri um pouquinho dos seus arrependimentos e sacode a cabeça diante das suas indecisões. Esse amor fica triste quando você finalmente vai, apaga a luz da sua sala e vai para casa, quase de madrugada, sozinho, para jantar sozinho e dormir sozinho. E quando a solidão aí na sua salinha da universidade, ou na sua casa imaculadamente limpa, doer mais do que o de costume, lembra da moça de vestido preto do aeroporto. Lembra de como ela olhava e ainda olha para você com olhos bons, generosos. Lembra do amor dela. E presta bem atenção. Você não pode estar sozinho. O amor que era para você, ela não teve como recolher porque amor não é reciclável. Ele vaga por aí. E você, querido, não tem apenas a vida que quer. Tem também a vida que merece.
Um beijo.

2 comentários:

Thais disse...

AMEI o 2o texto! Bjo

Fábio Justino disse...

Rodrigo,

Ando meio longe dos blogs, me deparei um pouco tarde com seu post. Fico muito lisonjeado e agradecido pela menção e pela preferência. Como lhe considero pessoa de grande sensibilidade, isto foi mais que um elogio. Saiba que este seu espaço é dos meus preferidos também. De verdade.

Grande abraço.