quarta-feira, 1 de junho de 2011

Marcas

Esse conto foi escrito a convite do músico Vinicius Castro para ilustrar a canção de mesmo nome gravada em seu disco Jogo de Palavras.



Ao entrar no quarto dela é possível perceber que todo o ambiente carrega os ares de criança bem cuidada, mimada e amada. A cabeceira da cama com entalhes e rococós, as cortinas esvoaçantes, os bichos de pelúcia, os espelhos, a cômoda, a penteadeira, tudo enfim revela o que um dia fora o quarto de uma menina com sonhos de princesa. Os móveis brancos ainda emprestam pureza ao ambiente, embora a tinta esteja descascada em muitos pontos e os lençóis da cama não sejam mais tão infantis. Olhando a escrivaninha de perto também é possível perceber que algumas das manchas não são sinais da madeira transparecendo abaixo da pintura e sim queimaduras que se estendem por dois ou três centímetros da borda da pequena bancada em direção ao centro. São manchas escuras sobre a superfície branca, que representam mais do que um defeito no móvel: são as manchas de cigarro que dão o primeiro sinal nítido de que não é mais uma criança que dorme ali. Os outros sinais estão escondidos.

Dentro dos armários encontramos mini-saias, camisetas, vestidos, shorts, biquínis e calças que revelam muito de sua personalidade. Não são roupas caras e tampouco aparentam ser de alguém que goste de luxo. As calças jeans são rasgadas nos joelhos e nas barras, as saias são longas e leves ou justas e curtas, os calçados são sandálias rasteiras ou tênis, as blusas são cheias de alças e golas que não parecem cobrir grande parte do corpo. Para o frio, jaquetas. Para a intimidade, calcinhas de algodão com diversas estampas e cores, um número limitado de soutiens tamanho pequeno que ela usa algumas vezes e outras não, dois conjuntos de renda para ocasiões especiais que nunca chegam e meias de algodão coloridas. Dois vestidos de festa, uma meia calça preta e uma meia arrastão completam a cena. A gaveta de acessórios transborda de brincos, colares de miçanga, fivelas, fuxicos, elásticos de cabelo, lenços, anéis, pedras e fitas. Olhando para o conjunto de roupas ela parece ter uns 15 anos. Olhando para a foto na cabeceira, onde quem faz pose é uma mulher, ela parece ter uns 25. Sua idade real deve estar no meio termo, mas continua um mistério insondável.

Os maiores segredos ficam nas gavetas da cômoda. Fotos da infância, cartas das amigas, coleções de presentes de ex-namorados. Foto no colo da mãe quando ainda era bebê, foto do aniversário de cinco anos no sítio, foto das meninas na escola, fotos da festa junina e do vestido de caipira. Mais ao fundo algumas fotos de uma festa de quinze anos, roupa de gala, namorado ao lado. Talvez o primeiro. Abaixo dessas, ainda mais ao fundo, outro álbum. Foto bebendo cerveja, foto beijando um garoto, foto beijando uma garota. Melhor irmos para a próxima gaveta.

A gaveta do lado esquerdo é cheia de objetos pessoais. Preservativos. Estojos de maquiagem. Documentos. Anticoncepcionais. Dentro de um porta-jóias, bijuterias. Dentro de outro porta-jóias, um baseado. Não é preciso ser gênio para ver que a menina cresceu. Olhando com mais atenção é possível inclusive desvendar outras marcas, mais sinistras. Existem manchas no colchão que revelariam muito mais do que os segredos que ela contou à melhor amiga. Embaixo do travesseiro, um teste de gravidez que ela comprou e ainda não fez. Deve fazer hoje à noite.

Ela entra no quarto enrolada em uma toalha, falando ao telefone, combinando a hora, o local do encontro, quem vai estar lá. Fala e ri e fala e ri enquanto escolhe uma calça e uma blusinha, desiste da calça, escolhe uma saia, escolhe outra blusinha. Antes de ficar pronta, esse processo se repetirá outras vezes. Desliga finalmente o celular, seca os cabelos, desenrola a toalha, veste uma blusa e uma calcinha. Antes de terminar de se vestir, pega o estojo de maquiagem e senta em frente ao espelho, onde revira o estojo em busca do batom ideal. Testa dois tons diferentes nas costas da mão, escolhe um. Só então se olha no espelho e chora. Eu estou ali, dentro do estojo, e sei que logo ela vai precisar de mim. Mas eu sou apenas um bocado de pó, uma base para corrigir pequenos defeitos ou ocultar manchas indesejadas na pele. E é o melhor que posso fazer: esconder as marcas da superfície. As outras marcas, por trás da pele, da carne, as marcas da alma, as marcas do passado, das escolhas mal-feitas, vão continuar aí, transparecendo aos olhos dela e de quem quer que se preocupe em ver os detalhes.


1 comentários:

Apimentadinha disse...

Carambaaaaa Rô.Amei esse post!
Sempre leio seus textos...mas esse..ah...qto de mim! rs

parabens querido...

Saudades das nossas cantorias em Itajubá.

bju Camila Marcondes