Esse conto foi escrito a convite do músico Vinicius Castro para ilustrar a canção de mesmo nome gravada em seu disco Jogo de Palavras.
Sabe doutor, eu já fui de tudo nessa vida. Ajudante de pedreiro, garçom, cobaia de tatuador, faxineiro de escritório. Só não fui puta por que, né?! Quem ia pagar pra transar com isso aqui? Não doutor, eu não ‘to’ pedindo dinheiro, ‘to’ só puxando assunto... É que eu bebi demais hoje, aí fico assim, falando pelos cotovelos. Mas tive meus motivos pra beber, né doutor?! Minha mulher... Ex-mulher, minha EX-mulher falava pelos cotovelos. Como falava aquela desgraçada! Era o dia inteiro falando doutor, tinha dia que eu saía, voltava e ela ‘tava’ lá falando, nem via que eu tinha saído.
Quando a gente casou, ela era um brotinho, uma princesa, doutor. Ela é baixinha assim, toda gostosinha, tinha um jeitinho de sorrir que me encantava. E era safada, a danada. A gente transava em tudo que era canto, o senhor tinha que ver. Bom, “tinha que ver” é modo de dizer, que eu não gosto de cabra me olhando enquanto eu faço meu serviço.
Como eu ia dizendo, no começo, isso faz uns dez anos, era só alegria. A gente namorava o tempo inteiro, ela dizia que eu era um sonho, que ia sair da casa da mãe pra morar comigo. Eu era pedreiro na época, ganhava pouco, mas tinha meu barraco. Eu já disse que fui de tudo nessa vida, né? Então. Ser ajudante de pedreiro é ruim por que não é sempre que tem serviço. Aí ela foi morar comigo e tinha vezes que eu ficava um tempão sem ganhar nada. Ela fazia umas marmitas e vendia pro pessoal do bairro, os vizinhos adoravam a comida dela, isso ela fazia bem, cozinhava bem pra caramba. Mas não gostava, né? Reclamava que não ‘tava’ certo isso de ser minha mulher e cozinhar pros outros. Ela dizia que só queria cozinhar pra mim. Eu achava tão bonito isso dela querer ser só minha que comecei a procurar emprego.
Primeiro eu arrumei esse bico de cobaia de tatuador, que dava para alternar com as obras, mas é muito ruim, doutor. Os caras que estavam aprendendo a tatuar me deixaram cheio de cicatrizes, dói pra caramba quando o cara não sabe tatuar direito e o desenho fica horrível. Isso sem contar que quando eu ia pra obra, era motivo de gozação. Olha, tem essa aqui no braço que eu gosto bastante. Mas o resto é um lixo, não gosto nem de mostrar. E eu precisava de um emprego regular. Foi quando consegui o ‘trampo’ de garçom, que paga pouco, mas é fixo. Além das gorjetas, claro. Eu trabalhava de quinta à domingo, das oito da noite às duas da manhã. Tinha uma equipe legal, dava pra tomar umas e ainda tinha a mulherada do bar que caía matando. Mas eu sempre fui fiel, doutor, eu gosto mesmo é de comida caseira. Só que minha morena foi ficando chateada, se sentia sozinha à noite, não tinha cabimento ela dormindo sozinha o fim de semana inteiro e eu nunca tinha tempo de ir com ela no baile, nos churrascos da vizinhança, ‘tava’ sempre cansado ou trabalhando. Aí tratei logo de procurar outro emprego.
O emprego de faxineiro foi o melhor que eu arrumei porque era meio período, eu ficava lá no escritório dos bacanas, me sentia importante. E ganhava melhor, doutor. No começo eu ‘tava’ feliz, minha pequena ‘tava’ feliz, eu passava a tarde fora e chegava de noite pro nosso chamego. Fazia já cinco anos que a gente ‘tava’ casado e eu comecei a perceber que ela andava estranha. Não tinha mais o mesmo fogo. Foi quando ela começou a falar demais, doutor. Ela ficou metida, sabe? A gente comprou televisão e ela só falava da novela, do galã da novela, das coisas que vendiam no intervalo da novela. Aí queria que eu comprasse a roupa da moça da novela, o batom da moça da novela, tudo da novela. E ficou chata doutor! Quando eu dizia que não tinha dinheiro para alguma coisa, ela me chamava de pobre e dizia que não ‘tava’ certo ser explorado daquele jeito, passar o dia no escritório dos bacanas limpando a sujeira deles, com ela em casa sem ter com quem conversar e eu ganhando tão pouco. Sabe o que era pior, doutor? Eu me sentia explorado, mesmo. Aí cansei dessa vida, cansei mesmo.
Foi quando eu resolvi que não ia mais ser pau-mandado dos outros, sabe? Quando eu resolvi me virar, ir pra rua, dar um jeito na situação. Aí eu virei camelô, vim trabalhar aqui nesse ponto que o senhor conhece, compro bala lá no atacado e vendo aqui baratinho. Quando me perguntam, digo que sou comerciante, não tenho patrão, ganho minha grana e ‘tá’ mais do que bom.
Minha pequena? Então, doutor, por isso que eu bebo. Por que no dia em que larguei o emprego, passei no atacadista, comprei as balas e fui correndo pra casa contar pra ela. Abri a porta do barraco e ela ‘tava’ lá doutor, com o vizinho que adorava a comida dela. Só que quem ‘tava’ dando a comida era ele, doutor! Aí não tive dúvidas, botei o cara pra correr e enchi ela de bala. Dessa bala aqui não, doutor, da outra mesmo. Não vai levar nada, hoje?
Sabe doutor, eu já fui de tudo nessa vida. Ajudante de pedreiro, garçom, cobaia de tatuador, faxineiro de escritório. Só não fui puta por que, né?! Quem ia pagar pra transar com isso aqui? Não doutor, eu não ‘to’ pedindo dinheiro, ‘to’ só puxando assunto... É que eu bebi demais hoje, aí fico assim, falando pelos cotovelos. Mas tive meus motivos pra beber, né doutor?! Minha mulher... Ex-mulher, minha EX-mulher falava pelos cotovelos. Como falava aquela desgraçada! Era o dia inteiro falando doutor, tinha dia que eu saía, voltava e ela ‘tava’ lá falando, nem via que eu tinha saído.
Quando a gente casou, ela era um brotinho, uma princesa, doutor. Ela é baixinha assim, toda gostosinha, tinha um jeitinho de sorrir que me encantava. E era safada, a danada. A gente transava em tudo que era canto, o senhor tinha que ver. Bom, “tinha que ver” é modo de dizer, que eu não gosto de cabra me olhando enquanto eu faço meu serviço.
Como eu ia dizendo, no começo, isso faz uns dez anos, era só alegria. A gente namorava o tempo inteiro, ela dizia que eu era um sonho, que ia sair da casa da mãe pra morar comigo. Eu era pedreiro na época, ganhava pouco, mas tinha meu barraco. Eu já disse que fui de tudo nessa vida, né? Então. Ser ajudante de pedreiro é ruim por que não é sempre que tem serviço. Aí ela foi morar comigo e tinha vezes que eu ficava um tempão sem ganhar nada. Ela fazia umas marmitas e vendia pro pessoal do bairro, os vizinhos adoravam a comida dela, isso ela fazia bem, cozinhava bem pra caramba. Mas não gostava, né? Reclamava que não ‘tava’ certo isso de ser minha mulher e cozinhar pros outros. Ela dizia que só queria cozinhar pra mim. Eu achava tão bonito isso dela querer ser só minha que comecei a procurar emprego.
Primeiro eu arrumei esse bico de cobaia de tatuador, que dava para alternar com as obras, mas é muito ruim, doutor. Os caras que estavam aprendendo a tatuar me deixaram cheio de cicatrizes, dói pra caramba quando o cara não sabe tatuar direito e o desenho fica horrível. Isso sem contar que quando eu ia pra obra, era motivo de gozação. Olha, tem essa aqui no braço que eu gosto bastante. Mas o resto é um lixo, não gosto nem de mostrar. E eu precisava de um emprego regular. Foi quando consegui o ‘trampo’ de garçom, que paga pouco, mas é fixo. Além das gorjetas, claro. Eu trabalhava de quinta à domingo, das oito da noite às duas da manhã. Tinha uma equipe legal, dava pra tomar umas e ainda tinha a mulherada do bar que caía matando. Mas eu sempre fui fiel, doutor, eu gosto mesmo é de comida caseira. Só que minha morena foi ficando chateada, se sentia sozinha à noite, não tinha cabimento ela dormindo sozinha o fim de semana inteiro e eu nunca tinha tempo de ir com ela no baile, nos churrascos da vizinhança, ‘tava’ sempre cansado ou trabalhando. Aí tratei logo de procurar outro emprego.
O emprego de faxineiro foi o melhor que eu arrumei porque era meio período, eu ficava lá no escritório dos bacanas, me sentia importante. E ganhava melhor, doutor. No começo eu ‘tava’ feliz, minha pequena ‘tava’ feliz, eu passava a tarde fora e chegava de noite pro nosso chamego. Fazia já cinco anos que a gente ‘tava’ casado e eu comecei a perceber que ela andava estranha. Não tinha mais o mesmo fogo. Foi quando ela começou a falar demais, doutor. Ela ficou metida, sabe? A gente comprou televisão e ela só falava da novela, do galã da novela, das coisas que vendiam no intervalo da novela. Aí queria que eu comprasse a roupa da moça da novela, o batom da moça da novela, tudo da novela. E ficou chata doutor! Quando eu dizia que não tinha dinheiro para alguma coisa, ela me chamava de pobre e dizia que não ‘tava’ certo ser explorado daquele jeito, passar o dia no escritório dos bacanas limpando a sujeira deles, com ela em casa sem ter com quem conversar e eu ganhando tão pouco. Sabe o que era pior, doutor? Eu me sentia explorado, mesmo. Aí cansei dessa vida, cansei mesmo.
Foi quando eu resolvi que não ia mais ser pau-mandado dos outros, sabe? Quando eu resolvi me virar, ir pra rua, dar um jeito na situação. Aí eu virei camelô, vim trabalhar aqui nesse ponto que o senhor conhece, compro bala lá no atacado e vendo aqui baratinho. Quando me perguntam, digo que sou comerciante, não tenho patrão, ganho minha grana e ‘tá’ mais do que bom.
Minha pequena? Então, doutor, por isso que eu bebo. Por que no dia em que larguei o emprego, passei no atacadista, comprei as balas e fui correndo pra casa contar pra ela. Abri a porta do barraco e ela ‘tava’ lá doutor, com o vizinho que adorava a comida dela. Só que quem ‘tava’ dando a comida era ele, doutor! Aí não tive dúvidas, botei o cara pra correr e enchi ela de bala. Dessa bala aqui não, doutor, da outra mesmo. Não vai levar nada, hoje?
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